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Internautas do recôncavo descobrem nas redes sociais uma forma de protestar

No mês de março, o internauta, Gabriel Barros da cidade de Santo Antonio de Jesus publicou em seu perfil na rede social Facebook uma foto em que um carro da Superintendência Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) aparece cometendo uma infração de trânsito. A foto-denúncia ganhou reforço, quando no dia seguinte, outro internauta publicou uma foto de outro veículo da frota da prefeitura cometendo a mesma infração. A repercussão e o debate nas fotos publicadas na rede social são exemplo de uma prática cada vez mais comum entre os brasileiros, o uso das redes sociais como modo de protesto. “A internet virou uma nova forma de protesto, ela está sendo benéfica! Hoje, 20% das grandes empresas brasileiras estão monitorando as redes sociais para saber se existem reclamações com relação às suas marcas.” Comenta o advogado Marco Aurélio Gomes, Assessor Jurídico/Gerente do Serviço de Atendimento ao Consumidor do Procon de Belo Horizonte. "A internet é um meio de protestar contra os absurdos que algumas empresas fazem com consumidores, as pessoas precisam buscar mais esse meio". Conclui.

As redes sociais que até pouco tempo atrás, eram usadas apenas por pessoas em busca de relacionamentos, agora assumiram funções diversas. Com a inclusão digital promovida pelo governo federal nos últimos anos, o número de usuários brasileiros em comunidades virtuais cresceu. Até fevereiro deste ano, o Facebook possuia mais de 35 milhões de usuários, um aumento de 298% em apenas um ano. Para o jornalista, Marcos Santos, a internet é uma “arma” na hora de reivindicar direitos, expor ideias, ou simplesmente elogiar uma ação. Os usuários criam conteúdo e compartilham com sua rede de amigos. Os manifestos sociais acontecem da mesma forma. O usuário que não gostou de algo expõe sua indignação na rede e seu protesto é repassado para todos aqueles que compartilham o mesmo pensamento.
A equação é simples, divulgar um assunto entre seus contatos, para que eles republiquem e os contatos deles vejam e então republiquem também para os contatos deles. A bola de neve que se forma, pode fazer um tema nascido na internet, chegar a mídia e ganhar novas proporções. A foto publicada por Gabriel Barros entrou facilmente na pauta dos veículos de imprensa da cidade, obrigando o superintendente municipal de trânsito, a emitir uma nota lamentando o ocorrido e prometendo punição aos culpados. Mesmo, com o pedido de desculpas, a atitude de Gabriel, motivou outros internautas a fazer o mesmo. O resultado disso é que mais seis fotos de carros oficiais cometendo infrações foram parar na internet.

Para o historiador Juliano Roso, o fenômeno das redes sociais veio para ficar: “Isso demonstra que esses instrumentos e redes sociais vieram para sair do mundo virtual e entrar também no mundo real. Quando a mobilização sai da rede e entra na concretude das coisas, ela começa a participar da vida real das pessoas”. Mas, o historiador também faz um alerta: “Tudo o que vier em prol da democratização e acesso das pessoas à informação deve ser visto de forma positiva. É importante para que as pessoas possam acompanhar e fiscalizar o governo e até mesmo a própria imprensa. Mas, quando existe uma demanda real em nosso bairro devemos acompanhar, não adianta postar no Facebook e não comparecer ao protesto”.

*publicado originalmente na Revista Reconvexo #2, em maio de 2012

Luz, câmera, Recôncavo!


Curso de cinema e audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira pode transformar o recôncavo em um polo nacional de cinema. Mas, quem vive da sétima arte na região aponta que barreiras ainda precisam ser ultrapassadas para se alcançar tal objetivo.
 Muita gente não sabe, mas antes mesmo da chegada da UFRB em Cachoeira, já tinha gente fazendo cinema no recôncavo. O santoantoniense Tau Tourinho e a sua trupe do movimento NOVOCINEMANOVO são o melhor exemplo disso. Quando virou aluno do curso da UFRB, há cerca de um ano, Tau Já tinha experiência no mundo do cinema alternativo brasileiro, e por isso dá dicas aos colegas: “Eu acho que fazer cinema no interior dá. Agora, tem que ser assim, pedindo uma ajuda aqui, uma coisa ali. Sem essas permutas com nossos amigos que são empresários, fica difícil.” Tau brinca com a própria sorte e revela que dentro do movimento a ideia é: “Sempre fazer filmes com o orçamento menor do que um churrasco de fim de semana.” Com essa proposta traçada, o grupo que, além de Tau, é formado por Gabriel Lopes Pontes, Lucas Virgolino e alguns outros colaboradores já experimentam o sucesso nacional com filmes gravados inteiramente no recôncavo, como “Má Vida” (2006), “Incarcânu a Tiortina” (2008) e o recém-lançado, “A Jega Recebedeira” (2012).

Um dos expoentes da nova geração de cineastas que vem sendo formada pela UFRB é o Feirense, Leon Sampaio. Para ele, a maior dificuldade em fazer cinema na região é a falta de estrutura. “Não existe um bom curso de teatro na cidade, com atores que a gente possa escalar para qualquer tipo de trabalho”. Leon também considera difícil viver apenas de cinema no país: “Hoje, viver de cinema no Brasil, é coisa para Rio ou São Paulo. Mas, os polos estão surgindo, Hoje já tem gente fazendo cinema em Paulínia (SP), em Fortaleza. Mas, é assim, se jogando em edital, fazendo parte de coletivos, de movimentos, se jogando mesmo.”
Leon também já teve a experiência de gravar um curta inteiramente no recôncavo. “A Eternidade” (2010), premiado no Festival de Cinema Universitário da Bahia e no Salão de Artes Audiovisuais do Recôncavo, foi locado nas cidades de Cachoeira e São Félix. Ele ainda comenta que não faz filmes para o mercado: “A gente hoje vê muito filme que não tem um engajamento, que não tem crítica nenhuma, e tem a maior divulgação, então eu sigo outra linha.” Para estimular os alunos e dar maior visibilidade ao trabalhos produzidos, o próprio curso organiza atualmente uma série de eventos como o BAFF (Bahia Afro Film Festival), o Cachoeira Doc e o Vídeo Índio Brasil. Mas, Leon afirma que o curso tem se tornado conhecido também graças a internet: “O trabalho que o pessoal do “As Cachoeiranas”1 fez, por exemplo, apesar de ser de uma linha totalmente diferente da minha. Foi muito divulgado e essas coisas que fazem o curso ficar conhecido.”

1 - “As Cachoeiranas” foi uma web série produzida em 2011 por alunos do curso de cinema da UFRB, como uma paródia ao seriado global “As Cariocas”. A cada semana um novo episódio era publicado no You Tube e divulgado nas redes sociais. Em 2012, o mesmo grupo de alunos criou a continuação “As Baianas”, que parodia “As Brasileiras”, a continuação do original, produzida pela emissora carioca.

*publicado originalmente na Revista Reconvexo #2, em maio de 2012.

Os contrastes de Orlandinho


Orlando Peixoto Pereira Filho, ou Orlandinho, prefeito de Cruz das Almas deixará o cargo em janeiro após oito anos. Engenheiro Agrônomo formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e com mestrado na Universidade de Santa Maria (Rio Grande do Sul), Orlandinho (PT) foi eleito pela primeira vez em 2004 com 56,09% dos votos. Em 2008 conquistou a reeleição ao ser lembrado nas urnas por 51,59% dos eleitores, contra 39,50% do segundo colocado, Dr. Jean (PMDB). Nos oito anos a frente da administração municipal, Orlandinho contribui para consolidar Cruz das Almas, como a segunda maior cidade do recôncavo sul, conquistando o slogan de cidade universitária e fazendo uma das festas de são João mais famosas de todo o Brasil. Mas, no apagar das luzes, Orlandinho sofre com duras críticas, principalmente, em relação a emprego e saúde no município, o que pode abalar a sua tentativa de eleger um sucessor para o cargo.

São João
Cruz das Almas sempre teve uma das festas de São João mais tradicionais do Brasil, atraindo turistas da Bahia e do Brasil. Mas, a fama atraiu também a concorrência e o município precisou reestruturar a sua festa para fazer frente a cidades como Amargosa, Cachoeira e Santo Antonio de Jesus. Muito da tradição do São João cruz-almense se deve a secular “Guerra de Espadas”. Bela, porém perigosa. A brincadeira atrai todos os anos centenas de guerreiros e o resultado são dezenas de feridos. Em 2011, essa história ganhou um capítulo polêmico  quando o ministério público proibiu a guerra de espadas e ordenou que quem desacatasse a ordem fosse imediatamente detido pela polícia. Em caráter de emergência, a câmara de vereadores aprovou uma lei liberando a brincadeira, mas, sem sucesso. Sob a ameaça de serem presos, alguns poucos espadeiros buscaram refúgio em áreas mais afastadas do centro para realizar os confrontos. Uma jornalista de Salvador, que cobria a guerra ‘clandestina’ acabou ferida, sem gravidade. Pelo menos dez pessoas foram encaminhadas para a delegacia por envolvimento com a queima de espadas. Para este ano, espera-se novo embate entre ministério público e sociedade.

Educação
Na educação, ponto positivo para o prefeito. Cruz das Almas virou referência na região no que se refere ao ensino superior. Em 2006, no maior trunfo da parceria com os governos estadual e federal, saiu de cena a desgastada Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia (AGRUFBA) e entrou a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Segunda universidade federal do estado e com uma estrutura de dar inveja a qualquer centro educacional do país. Com a reitoria, prédios administrativos e doze cursos distribuídos em dois centros, a UFRB trouxe para Cruz das Almas uma população de quase 10 mil universitários e um novo slogan: “Cidade Universitária”. Instituições privadas como a Famam também contribuíram para esse crescimento.

Moradia
Outro quesito que avançou sob a batuta de Orlandinho. Depois da implantação da UFRB e da chegada de empresas nacionais e multinacionais, o setor de construção civil acabou valorizado. Cruz das Amas passou a ter o metro quadrado mais caro do recôncavo. Na parte social, a inclusão da cidade no programa Minha Casa, Minha Vida, garantiu casa própria para 208 famílias. Além disso, a própria prefeitura construiu mais 70 casas no Loteamento da Embira e outras 50 na zona rural do município.

Esporte
Na área de esportes, o projeto social Construindo o Futuro Através do Esporte, beneficiou centenas de crianças e adolescentes e revelou talentos que levaram o time da cidade, o Cruzeiro, a subir para a segunda divisão do campeonato baiano. O cruzeiro teve seu drama contado na primeira edição da Revista Reconvexo.
Saúde
Na saúde, as coisas não avançaram tão bem quantos nos outros quesitos citados anteriormente. A Santa Casa de Misericórdia, transformada em 2005 em hospital de referência, sofre com graves crises financeiras e a iminente ameaça de fechamento. Em 2011, Cruz das Almas perdeu a unidade referência em tratamento de queimados para o recém-inaugurado Hospital Regional de Santo Antonio de Jesus. Em fevereiro deste ano, voltou a ter destaque negativo quando o Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde (IDSUS) atribuiu nota 4,8 ao atendimento do SUS na cidade, ficando abaixo da média nacional 5,8 e sendo eleito o pior do recôncavo.
Emprego
Quando o assunto é emprego, surge outra contradição. Em 2009, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apontou Cruz das Almas como a segunda cidade baiana que mais gerava empregos, atrás apenas de Salvador. Em três meses, daquele ano, a cidade criou quase 1.200 novos postos de trabalho. Principalmente nos setores de indústria de transformação, construção civil, comércio, serviços e agricultura.
Mas, os números retrocederam e em 2012 ganharam um agravante. O projeto do governo federal Convenção Quadros para o Controle do Tabaco que tenta diminuir o consumo do tabaco no país levou armazéns de fumo e fábricas de charuto ao fechamento, fazendo com que mais de 10 mil trabalhadores da produção fumageira, simplesmente, perdessem seus empregos.

Sucessão Municipal
Mesmo com os altos e baixos da administração, o apoio do prefeito nas próximas eleições é disputado pelos pré-candidatos. Mas, Orlandinho já escolheu apoiar o atual vice-prefeito, Valtércio Queiroz (PT). Também despontam na corrida pré-eleitoral, os médicos, Dr. Raimundo Jean (PMDB) e Dr. Fernando (PV), o empresário Ednaldo Ribeiro (PTC), seu irmão, Edson Ribeiro (DEM) e os vereadores André Eloy (PMDB), Max Passos (PSDB) e Osvaldo da Paz (PT). Outros nomes, ainda seguem a disposição dos partidos para eventuais candidaturas como Jorge Andrade (PSB), Mário do Jornal (PTB) e Paulo Freire (PCdoB).

*publicado originalmente na Revista Reconvexo #2, em maio de 2012

Cidades do recôncavo se reestruturam para comportar aumento da população


A criação de centros universitários e a instalação de empresas nacionais e multinacionais são alguns dos fatores que estão levando as duas maiores cidades do recôncavo a um fenômeno que até pouco tempo atrás era exclusivo das capitais brasileiras, o crescimento populacional. Mesmo auxiliando no desenvolvimento da economia da região, se as cidades não estiverem preparadas, o fenômeno pode transformar-se em problema e trazer consequências desastrosas num futuro próximo. 


Em Santo Antonio de Jesus, no bairro Cajueiro, quem vendeu uma casa ou terreno há sete ou oito anos atrás, certamente, está arrependido. Isso porque a área foi supervalorizada nos últimos anos com a instalação de um centro da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e de uma unidade do Clube do Serviço Social do Comércio (SESC). Segundo, as agências de correção imobiliária, alguns imóveis do bairro tiveram seus valores quadruplicados num período de cinco anos. Essa valorização deve aumentar, pois um condomínio de luxo, ainda com lotes a venda, também está sendo erguido no local e em fevereiro, deste ano, 500 famílias se mudaram para um conjunto residencial construído no bairro pelo programa Minha Casa, Minha Vida.

Com a urbanização da área que até pouco tempo atrás fazia parte da zona rural do município, foram adotadas medidas para melhorar as condições de habitação e trazer mais conforto aos moradores do local. A prefeitura asfaltou as ruas que antes eram de terra, distribuiu 54 postes de iluminação ao longo da área, criou um espaço de lazer e disponibilizou uma linha especial de ônibus.


Em Cruz das Almas, o Bairro Tabela também teve seus imóveis valorizados após a implementação da sede da UFRB no município. Com o aumento da demanda, o aluguel de um imóvel simples no bairro com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, que há cinco anos custava entre R$ 200 e R$ 250, agora custa, em média, R$ 500.
Também, em Cruz das Almas, a construção de casas populares é um dos principais fatores da urbanização de áreas rurais. Em julho de 2009, setenta novas famílias ganharam casas novas no povoado da Embira. Para comportá-las, a prefeitura realizou obras de calçamento e saneamento básico e levou água encanada para o bairro. O mercado imobiliário cruzalmense também espera aproveitar os benefícios, uma grande área loteada no local, já está à venda.

De acordo com o geógrafo Wagner de Cerqueira e Francisco, as cidades mais equipadas exercem um grande poder atrativo, o que desencadeia fluxos migratórios. Se a cidade não estiver preparada ou não tiver espaço físico, um aumento anormal no número de habitantes pode ser ruim e causar um inchaço populacional. “Com isso, se intensificam atividades que exigem baixo grau de instrução como as desenvolvidas por vendedores ambulantes, coletores de materiais recicláveis, flanelinhas, e etc... Também é comum o aumento do número de moradores de rua, já que algumas pessoas não conseguem obter renda suficiente para financiar locais adequados para a habitação.” Explica.

O inchaço populacional pode resultar em ocupação de áreas impróprias, surgimento de novas favelas, problemas de trânsito, aumento da produção de lixo, falta de vagas em escolas e hospitais, desemprego, cotação imobiliária acima da inflação, entre outras complicações. Para evitar isso, uma boa ideia para as administrações é criar postos de trabalho e escolas em cada bairro, desafogando os centros. Urbanizar áreas rurais é uma saída, mas, também é prejudicial, já que tanto Santo Antonio de Jesus, quanto Cruz das Almas dependem de sua agricultura.

Para Wagner, o melhor é fazer com que esse crescimento seja calculado. “Planejar ações e políticas públicas para proporcionar qualidade de vida e, principalmente, dignidade para os cidadãos.” Conclui.

Dona Dalva; sinônimo: Samba!


Dalva Damiana de Freitas, ou simplesmente Dona Dalva e em breve Doutora Dalva. A mulher que é a personificação do samba de roda cachoeirano abre o coração em uma entrevista exclusiva. Fala sobre o título de doutora honoris causa que receberá em breve da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, sobre o Samba de Roda Suerdieck, a Irmandade da Boa Morte, relembra o passado e prestes a completar 84 anos revela o quer da vida de agora em diante.

A Cachoeira: Antes de ser a Dona Dalva do Samba de Roda Suerdieck quem era a mulher Dalva?
Dona Dalva: Eu, Dalva Damiana de Freitas, era uma operária da Suerdieck. Mas, foi na fábrica Dannemann que aprendi a minha formação de operária charuteira com a mestre Maria Matilde. Ela foi quem me ensinou. Tudo era feito na mão. Aprender as coisas era a maravilha da vida. Naquele tempo, a classe operária não tinha os direitos que tem hoje. Não tinha reconhecimento. Não tinha nada.

AC: Como a Dalva operária se tornou a Dalva do Samba de Roda?
DD: Quando a Dannemann fechou por causa de uma greve. Na fábrica tinha uma foto de Getúlio Vargas, algumas colegas, antes do trabalho oravam em frente a foto e pediam proteção a ele. Porque ele deu as coisas que agente não tinha naquela época. Ele deu salário mínimo, férias, licença maternidade, a gente chamava ele de “Papai”. A gente tinha aquele amor, aquela devoção. A gente defendia o nome dele. Não deixava ninguém falar mal. Mas, um dia, a gente chegou pra trabalhar e a foto dele na parede havia sumido. Foi uma confusão. Todo mundo procurando “Cadê o retrato de papai?” Quando achamos, estava na lata do lixo, todo rasgado. Aí veio a greve. Tocaram os sinos. Todo mundo parou de trabalhar. Todas as classes operárias de São Félix participaram. Derrubavam os bancos das charuteiras que não queriam parar de trabalhar. Os que não queriam a greve tiveram que ir pra casa. E eu vim embora com a minha mãe porque ela tinha medo. No outro dia quando a gente chegou pra trabalhar a fábrica tava com as portas fechadas. Todas demitidas.

AC: E o que a senhora passou a fazer?
DD: Fiquei alguns anos parada, até ir para a Suerdieck. Lá, o encarregado de produção dizia: “Dalva é lenta. Mas, trabalha com qualidade!” e ali nas horas vagas, eu já fazia meu samba. As outras charuteiras se preocupavam em dar produção. Porque quem não desse produção era demitida. Eu nunca dei produção na minha vida. Quando uma colega ficava doente, eu passava caixinha, pra comprar remédios pra ela. Eu também organizava pra gente participar de festas Nossa Senhora D'ajuda, Santa Cecília. Então, as outras operárias tomaram amor comigo. E eu já fazia meu samba. Eu comecei a fazer samba ainda menina pra comemorar o aniversário das minhas bonecas.

AC: Então, o samba começou na sua vida como uma brincadeira de criança?
DD: Sim. Eu fazia casamento de bonecas, terno de reis, samba de roda. O que me desse na cabeça eu fazia e dava certo.

AC: Conte-nos um pouco mais sobre a Dalva menina. O que você gostava de fazer?
DD: Eu já fazia meus quitutes, meus ternos e minhas colegas me apoiavam. Eu pedia roupa emprestada a elas e fazia.

AC: Atualmente, como você observa a decadência das festas religiosas?
DD: É a falta de crença da humanidade. Essa modernidade de agora só acreditam em muvuca. Mas, eu acho que agente deve acreditar e fazer as coisas como eram antigamente. Tudo com amor, com dignidade.

AC: Qual o maior presente que o Samba de Roda lhe deu?
DD: Conhecimento. Me deu conhecimento. Muitas amizades boas. Enfim, me deu tudo. Através dele agente criou esse amor, essa força. Antes, agente não sabia de nada, não conhecia nada. A verdade é essa, não querem que eu fale, mas, eu falo.

AC: Ainda existe preconceito contra Samba de roda em Cachoeira?
DD: Antigamente, ninguém queria saber de samba. Porque era festa de pobre, de pessoas que não tinham nem roupa. Mas, teve uma época que o samba que eu fazia, quando saia na rua, parecia os Filhos de Gandhi quando saem na praça. Era um tapete. Saiam os tocadores com violão, cavaquinho, percussão. E as mulheres pegavam caquinhos nas fábricas que trabalhavam e eu dizia assim:

"A faca é minha caneta
A tábua é meu caderno
E o pandeiro é o meu tinteiro"

Antigamente, o único samba que existia, era aquele de depois da reza de Cosme e Damião. Um sambinha dentro de casa. Eu, Dalva Damiana de Freitas, foi quem fez esse grupo ser conhecido pela humanidade. Depois disso foi que surgiram vários, vários e vários.

AC: Quando surgiu a ideia do título de doutora honoris causa. Como foi pra senhora?
DD: (emocionada)... Deixa eu respirar meu filho... Eu me sinto feliz porque o conhecimento é tudo na vida. Eu era reconhecida fora mas, não aqui nesta terra. Achavam que o samba de roda nesta terra não ia ter continuidade. Eu respondi que eu com um pandeiro, com uma saia e um pano de costa amarrado na cintura é samba de roda. É Cachoeira. Então eu me sinto agradecida de o professor Xavier, esse cidadão ter vindo, ter reconhecido meu trabalho. Agradeço a Deus, porque esses anos todos ainda não tinha acontecido de pessoas de um grupo ter um reconhecimento desse tipo.

AC: O que mudou depois desse título?
DD: Para mim mudou tudo. Eu me sinto tão satisfeita que eu peço a Deus que me dê mais anos de vida e prosperidade porque estou esperando tudo de bom para o Samba de roda Suerdieck. Eu sei que esse título abriu as portas pra gente.e eu agradeço o professor Xavier Vatin que veio reconhecer o trabalho de uma mulher de 83 anos, e dia 27 de setembro eu faço 84, dia de São Cosme.

AC: Foi a maior homenagem que a senhora recebeu?
DD: Foi. Eu estou agradecendo a Deus todos os minutos. Eu faço 54 anos de samba, dia 22 de novembro. O reconhecimento que o professor Xavier me deu com esta carta, este anel, este amor.

AC: A senhora acredita que este título homenageia também as suas raízes?
DD: Sim. Toda a minha família. Meus netos, meus bisnetos estão vibrando e agradecendo a Deus, Todos tocam no samba (novamente emocionada). Estou satisfeita, muito satisfeita.

AC: Como a Irmandade da Boa Morte entrou na sua vida?
DD: Minha avó Vicença Ribeiro da Costa, conhecida como Vicença Xodó, era irmã da Boa Morte no tempo em que a Boa Morte ainda não tinha sede. Não tinham nada. Eram casas alugadas, vivia de aluguel, cada ano uma casa diferente. Só depois foi que veio o reconhecimento do sofrimento das irmãs. Porque todas as irmãs são sofridas. Hoje, eu sou irmã da Boa Morte. Já fui tesoureira e agora sou escrivã. Então hoje pra mim, tudo é orgulho. Tudo pra mim, chegou na hora certa. Hoje, eu ainda sento na máquina, ainda coso minhas coisas. Na minha família todos tocam no samba de roda. Eles enchem aqui essa casa e todos me chamam de vó. Todos, até os do samba que não são parentes.

AC: A senhora gostaria de receber alguma visita especial aqui na Casa do Samba de Roda?
DD: Gil (Gilberto) me conhece mas, ainda não pode vir aqui nessa casa. Dona Canô que está completando 104 anos. Eu peço a Deus que dê a saúde dela reestabelecida, porque ela merece. Porque Dona Estelita fez 105 anos ontem e Mãe Filhinha dia 25 de outubro faz 108 anos. Mas, eu queria um abraço da nossa presidente Dilma. Eu queria um abraço de Lula. Todos eles.

AC: O que a senhora espera do futuro?
DD: Muita paz, muita tranquilidade, saúde. Que Deus me dê mais alguns anos de saúde. Eu desejo a grandeza desse título que eu recebi.

AC: E como a senhora acredita que vai estar aos 100 anos?
DD: Eu quero estar sentada aqui vendo vocês chegarem pra me abraçar e eu quero levantar pra sambar. Eu quero sambar.

AC: Então a senhora espera chegar aos 100 anos sambando?
DD: Eu tenho uma coisa comigo. Quando Deus me chamar para o mundo da verdade. Porque esse mundo que nós vivemos é o da mentira. Um fala uma coisa, outro fala outra e a verdade acaba se tornando uma mentira. Mas, eu espero que quando eu for me embora, eu quero que todo mundo vá atrás vibrando, cantando samba “Adeus que eu já vou me embora”. “No samba nasci, no samba me criei, e no samba eu quero ir embora.” Eu me sinto feliz. Se todo mundo que tiver grupo se sentir feliz como eu me sinto. Oh, glória! Se eu puder ver todos os grupos crescendo, orgulhosos pra ter reconhecimento. Para saber o que é a cultura, eu me sinto feliz. Porque a cultura é a felicidade. A cultura é a grandeza e a cultura é o coração da gente e acho que todos devem criar esse amor. Agente tem que ter amor. Sem amor não tem dinheiro e com o amor o dinheiro vem. O amor de Deus conserva as coisas.

Guerras, amores e charutos em: “Uma história de novela”


No mundo, tem gente, cuja história de vida daria um livro dos bons. Capaz até de virar de best-seller. Uma dessas pessoas atende pelo nome de Rose Mary Schinke Martfeld. Mas, ela logo sorri e retruca: “Meu filho, minha vida não tem história.” Será?

A história da vida desta alemã com nome inglês de 68 anos começa ainda na década de 20 do século passado quando Johann Heinrich Schinke deixa uma Alemanha devastada pela guerra e vem trabalhar na Fábrica de Charutos Suerdieck em Maragogipe. Lá trabalhou por dez anos até conseguir retornar a Alemanha para reencontrar o grande amor que havia deixado para trás. Na Alemanha, Johann se casou e foi feliz até que no segundo parto, sua esposa veio a falecer. Ele deixou então os filhos Inger e Rolf em terras germânicas e voltou para o Brasil disposto a recomeçar a vida. Aqui conheceu a charuteira Zelinda. Os dois apaixonaram-se, casaram e tiveram três filhos Gerda, Helmuth e Rose.

A vida dos Schinke seguia em progresso até ser novamente abalada pela guerra. Em 1942, o governo brasileiro autorizou que empregados estrangeiros fossem demitidos sem direito a indenização. Johann foi demitido, teve seus bens confiscados e foi levado para Salvador. Abalada com a prisão do marido e com boatos de que ele havia sido morto, a jovem Zelinda entra em um grave estado de depressão e dá fim a própria vida. Deixando três filhos, entre eles, Rose com apenas quatorze dias de vida. Sem pai, mãe, nem outros parentes na hora do registro, a garota que devia se chamar Rose Marie acabou Rose Mary e assim ficou.

Quando Johann foi libertado estava novamente viúvo e agora sem trabalho, com dois filhos na Alemanha e três no Brasil. A família seguiu para Maracás onde viviam dezenas de alemães na mesma situação. “Foi um tempo duro. Até a comida era a prefeitura que dava” relembra Rose. Só retornaram ao recôncavo em 1948. Johann trouxe os filhos da Alemanha e reuniu a família em São Félix, onde passou a trabalhar como gerente da fábrica de charutos Dannemann. Não casou de novo. Trabalhava na fábrica e cuidava sozinho dos cinco filhos. A família morava em um sobrado da própria fábrica. Em 1955 a Dannemann veio à falência. Johann foi novamente demitido sem direito a indenização. Sem dinheiro, o último bem dos Schinke teve de ser vendido. A casa de Maragogipe onde, ainda que por pouco tempo, conseguiram ser felizes.

Em 1958, Johann que estava doente com problemas pulmonares morre a bordo de um navio retornando da Alemanha para a Bahia. O filho mais velho Rolf passa a sustentar os irmãos. A família continua morando no sobrado da Dannemann até este ser destruído por um incêndio em 1959. Rose seguiu a irmã Gerda que se casou e foi para Salvador. Formou-se em contabilidade e sempre vinha a São Félix nas férias. Numa dessas férias a jovem Rose foi ao antigo cinema de Cachoeira e chamou a atenção de um descendente de alemães que por aqui vivia Hermano Martfeld. A aproximação dos dois foi providenciada por um amigo em comum de Rolf e Hermano. “Mano era lindo, alto, forte. Atiçava todas as moças. Mas, foi só meu” salienta.

Rose e Hermano namoraram, casaram e se mudaram para Cachoeira onde decidiram investir no ramo dos charutos. Nascia a Comercial de Charutos Paraguaçu LTDA. Tiveram dois filhos e foram felizes. A fábrica prosperava até o ano de 1999 quando Hermano faleceu de aterosclerose precoce. Sozinha, Rose resolveu assumir os negócios da fábrica e descobriu que as coisas não iam nada bem. Já doente Hermano deixou de pagar impostos. A fábrica estava em sérias dificuldades financeiras e quem tinha a missão de reerguê-la era Rose que nunca havia estado a frente de um negócio. Mas, ela conseguiu. Em 2003, a Paraguaçu voltou a operar no azul. Rose então encerrou as atividades da empresa e montou uma nova fábrica batizando-a com o próprio nome Rose Mary Schinke Martfeld.

Agora Rose, prepara-se para mais um momento difícil na vida, a aposentadoria. Ela pretende vender a fábrica e mudar-se em breve para Maragogipe. Onde pretende descansar e a finalmente aproveitar a vida. Ao fim da nossa segunda conversa, quando me despedi Dona Rose confessou: “É, Até que minha vida dava um livro mesmo.” Dá sim, Dona Rose. Um livro dos bons!

Com informações do livro "Bahia de Todos os Charutos", de Hugo Carvalho
Foto: Revista Muito

Os muitos talentos e as muitas histórias do Professor Ceguinho


Em busca de pessoas que tivessem boas histórias para contar nesta edição de aniversário de 115 anos do Jornal A Cachoeira cheguei até a casa do Professor Ceguinho. Um senhor muito simpático que conheci durante o recenseamento do IBGE em 2010. Soube de antemão que ele reservava na memória, histórias que fizeram parte da vida de dezenas de cachoeiranos e assim fui conversar com ele. Ceguinho abriu a casa e o coração. Mostrou ser um homem simples que gosta de contar histórias e que talvez, por isso tenha exercido tão bem a profissão que escolheu e com a qual, trabalhou por quatro décadas.

Logo de cara, descobri que o nome dele, na verdade, é Gilvandro Soares da Cruz. Mas, ele mesmo brinca: “Na rua, as vezes chamam: - “Gilvandro!”E eu não ligo. Quando chamam: - “Ceguinho!”Aí, eu sei que é comigo.” (risos). O apelido o acompanha desde a infância. Um amigo apelidado por ele de Zé da Peida resolveu revidar a homenagem e o batizou de Cego Orgulhoso. “Eu sempre fui vesgo. Mas, fazia sucesso com as meninas” comenta. E o apelido pegou: “Minha mãe não gostava, mas, eu nunca liguei.”

O garoto Gilvandro era também atleta. O esporte preferido era o basquete e ele era uma promessa. Foi um dos destaques da seleção de basquete de Cachoeira. Duas vezes campeão baiano, chegou a passar por alguns clubes de Salvador. Mas, a carreira nas quadras não engrenou. O garoto talentoso retornou a Cachoeira, cresceu e se tornou professor. O apelido mudou também. De Cego Orgulhoso para Ceguinho, professor do Colégio Estadual da Cachoeira e incentivador do esporte na cidade.

Ele relembra com saudade a epopeia da construção do estádio municipal de Cachoeira que hoje se chama 25 de junho, em homenagem a data magna da cidade. Segundo ele, antes havia apenas o pequeno campo do Fluminense de Cachoeira e o presidente do clube convocou os torcedores a ajudar na construção do estádio. Mas, não só os torcedores do Fluminense participaram do mutirão. Todos os amantes e incentivadores do esporte reuniram-se e ajudaram carregando tijolos, cimento e pondo a mão na massa, literalmente. Depois que o estádio ficou pronto os torcedores construtores o transformaram numa verdadeira Bombonera. A seleção de Cachoeira foi, por muito tempo, imbatível jogando no seu estádio. As partidas mais marcantes eram quase sempre contra a arquirrival seleção de São Félix.

Ceguinho foi também vereador por dez anos consecutivos e por isso hoje reclama dos políticos faltosos “Naquela época, as sessões aconteciam duas vezes por semana, durante o dia, a gente não recebia um centavo. Hoje em dia, eles ganham bem, é uma sessão por semana e eles ainda faltam” Hoje, o ex-atleta e ex-político Ceguinho caminha com dificuldade, por conta de um derrame sofrido em 2009. Só sai de casa para ir a barbearia. Passa a maior parte do tempo em casa e só acompanha os esportes pela TV. Ele revela que sente falta dos irmãos que já faleceram e dos amigos da época de juventude. Longe das salas de aula que comandou por quarenta anos, ele também mostra preocupação com os jovens e a educação de hoje em dia: “Naquele tempo, a gente levantava de manhã cedo para fazer Educação Física e ninguém faltava. Hoje em dia, não é mais assim. Nesses anos todos, eu quase não faltei. No dia que eu não ia, podiam saber que, ou eu estava doente, ou tinha acontecido alguma coisa.”

Um homem que se dedicou tão bem a tudo o que se propôs a fazer na vida, realmente merece um descanso. A nós cabe o prazer de sermos ouvintes deste homem. Gilvandro Soares da Cruz, o Ceguinho. Um exemplo de professor, político, atleta, cidadão, enfim, um exemplo de pessoa. 

Torcer Para Quem?


Responda rápido. Qual o último clube do recôncavo a disputar a primeira divisão do campeonato baiano? Se você achou a pergunta difícil e não consegue, nem ao menos, se lembrar de uma possível resposta, você não está numa situação muito diferente dos apaixonados por futebol do recôncavo. Sem clubes da região na disputa, os amantes do esporte, hoje, engrossam o coro das torcidas de Bahia e Vitória, mas, nem sempre foi assim.

Faz tanto tempo, que pouca gente se lembra, mesmo. O último time da região a disputar a primeira divisão do baianão foi o Cruzeiro de Cruz das Almas, no longínquo ano de 2004. Naquele ano, o azul e amarelo, como era conhecido participou de uma acirrada disputa. Os principais adversários eram o Bahia, que havia acabado de ser rebaixado no campeonato brasileiro e o Vitória, que tentava alargar o sofrimento tricolor e era o atual campeão estadual. Após mais de três meses de épicas batalhas e grandes confrontos, o tigre de Cruz das Almas acabou rebaixado.

Na memória do torcedor cruz-almense, uma campanha permanece viva. Em 2002, a Federação Baiana de Futebol, separou os times do interior e da capital em duas fases distintas, criando o Campeonato Baiano só com times do interior e o Super Campeonato Baiano que teria Bahia, Vitória e os quatro melhores clubes do interior. O Cruzeiro então fez, simplesmente, a melhor campanha da sua história, sendo o segundo melhor da primeira fase, ficando atrás apenas do Palmeiras Nordeste. Na segunda fase, o time não conseguiu repetir as boas atuações e ficou em quarto lugar. O Vitória acabou campeão.

Depois de 2004, o clube nunca mais conseguiu se reerguer. A volta para a segunda divisão afastou patrocínios e a torcida. Jogadores foram embora e o Cruzeiro não lucrou em praticamente nenhuma negociação. O time que já havia conquistado a série b em 1998 não conseguiu repetir o feito. Os anos se passaram e o time definhou em dívidas. No auge da crise, chegou a ficar inativo. O fim estava próximo.

O Cruzeiro retomou suas atividades no ano passado. Graças a uma parceria com a prefeitura que criou o projeto social “Construindo o Futuro Através do Esporte”. Uma grande peneira com mais de mil jovens de 7 a 17 anos. Os melhores foram selecionados para integrar a divisão de base do azul e amarelo. Agora em 2012, O time conquistou o vice-campeonato do torneio seletivo da FBF para a segunda divisão do campeonato baiano, competição que o azul e amarelo não disputa desde 2004.

Com isso, o Cruzeiro está de volta a briga para chegar a elite do futebol estadual e representar o recôncavo na primeira divisão. O novo desafio começa no dia 28 de abril, além do Astro, o Cruzeiro terá como adversários: Botafogo, Galícia, Ipitanga, Ypiranga, Colo Colo, Guanambí, Jacuipense, Jequié, Astro.

Os Verdes-louros de Euvaldo Rosa


Prefeito da maior cidade do recôncavo chega ao fim de oito anos de administração. Nesse tempo, Euvaldo Rosa (DEM) viu seu partido quase acabar, passou por situações polêmicas, não cumpriu as principais promessas da campanha.  Mas, consegue chegar com boa popularidade ao fim do mandato.  Euvaldo assumiu a prefeitura em 01 de janeiro de 2005, depois de ser eleito com 50,3% dos votos numa acirrada disputa contra Humberto Leite (PSDB) que obteve 42,6%. Candidato do ex-prefeito, Álvaro Velloso Bessa, chegou prometendo continuidade e assim foi. Mas, em oito anos de governo, não foram poucos os casos que dividiram a opinião dos santo-antonienses em relação ao prefeito democrata.

A cor da discórdia
Assim que assumiu o comando da prefeitura, Euvaldo mandou pintar todos os prédios públicos de verde, cor que escolheu para ser marca da sua administração. A medida inusitada gerou reclamações de uns e piadas de outros. A própria prefeitura passou a ser chamada por alguns de Casa Verde num claro protesto a ideia do mandatário. Mas, o que era cômico virou protesto quando numa fracassada tentativa de regularizar o serviço de moto táxi na cidade, a Superintendência Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) decretou que todos os motoqueiros precisavam pintar suas motos na cor adotada pela administração. A medida também reduziria o número de moto taxistas da cidade de mais de dois mil para apenas seiscentos. Durante os protestos da categoria, o prédio da prefeitura chegou a ser alvo de um atentado, onde um vigilante ficou ferido, após a explosão de uma bomba caseira. Hoje em dia, a SMTT voltou a relaxar a fiscalização e a maioria dos moto taxistas segue trabalhando de maneira irregular e sem ter a moto pintada de verde.

Cidade sem palmeiras
Santo Antonio de Jesus, também é conhecida na região como Cidade das Palmeiras, por causa das palmeiras seculares que existiam paralelas a antiga linha do trem. Outra ideia controversa do prefeito mexeu diretamente com esse patrimônio santoantoniense. Euvaldo ordenou a derrubada das palmeiras seculares que ficavam na Avenida Ursicino Pinto de Queiroz durante as obras para a construção da nova praça.

Praças
Praças, esse é o primeiro ponto negativo que os santo-antonienses lembram em relação ao prefeito. Isto porque, as duas mais antigas da cidade, não foram reformadas como se esperava. A Praça Padre Mateus, que virou um grande estacionamento, tinha sua reforma dada como certa pelo então candidato a prefeitura Euvaldo Rosa. Na Praça São Benedito, a Paróquia acabou reformando por conta própria a igreja e o cruzeiro, o resto da praça segue sendo livremente usada pelos comerciantes que expandiram seus trailers colocando toldos e construindo até banheiros particulares no espaço que já nem parece mais ser público. Euvaldo preferiu investir em reformas e construções de praças e áreas de lazer em bairros mais periféricos da cidade como o Bairro São Paulo, a Urbis I e a Urbis IV. Nessas praças, a padronização dos estabelecimentos comerciais foi respeitada e a população passou a ter mais uma opção de lazer. Ponto positivo para o prefeito.

Promessas
No social, o prefeito do DEM também viu projetos dados como certo não saírem do papel. Um deles, o Bolsa Família Municipal que prometia um benefício maior para as famílias de baixa-renda do município e nunca virou realidade. Outro programa que também não avançou foi o Projeto Fênix prometido para regularizar a fabricação de fogos artifício no município (Em dezembro de 1999, 64 pessoas morreram na explosão de uma fábrica de fogos em Santo Antonio de Jesus).

A Popularidade de Euvaldo
Então como explicar a boa popularidade com que Euvaldo chega ao fim dos seus oito anos de mandato. Nesse tempo não há como negar que a cidade segue em plena evolução, e o nome do prefeito quase sempre esteve ligado aos avanços do município. Como a criação do Pólo Industrial que reuniu fábricas e indústrias numa área afastada do centro da cidade, demonstrando consciência ambiental e atraindo novas empresas, algumas delas internacionais, inclusive. Euvaldo também ajudou a consolidar a Festa de São João da cidade como uma das maiores e mais requisitadas do país. Euvaldo deu aval para a volta das linhas de ônibus que foram bem reintegrados ao cotidiano dos santo-antonienses.
Euvaldo também ganhou pontos em obras nas quais o governo municipal teve pouca ou quase nenhuma participação. Foi na administração de Euvaldo que a cidade ganhou um centro da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O Centro de Ciências e Saúde (CCS), que em breve deve passar a oferecer o curso de medicina. A população finalmente viu a inauguração do Hospital Regional de Santo Antonio de Jesus (HRSAJ) e uma unidade do SESC Clube do Comércio foi instalada na cidade.

Sucessão Municipal
Agora o prefeito do DEM, espera usar a sua popularidade para eleger um sucessor a Casa Verde. O mais provável nome para candidato do prefeito é o do deputado estadual Rogério Andrade (PSD). Mas, outros pré-candidatos, ainda correm, por fora, na briga pelo apoio do atual prefeito. O vice-prefeito, Juanito Barbosa (PP) declarou recentemente que almeja se tornar o primeiro prefeito negro da capital do recôncavo, gerando um problema dentro do partido que já havia começado a trabalhar na campanha do médico Leonel Cafezeiro. Ainda na base do governo, outro nome forte é o da ex-vice-prefeita Dalva Mercês (PSB) que quer se tornar a primeira mulher a governar a cidade.
Na oposição, os nomes mais cotados são do PT com o vereador Aílton Santos e o ex-prefeito Álvaro Veloso Bessa, recém chegado ao partido. Quem também deve ter candidato próprio é o PDT que confirmou a pré-candidatura do ex-prefeito Humberto Leite, mas, tem o médico Everaldo Júnior também buscando apoio para ser o concorrente nas eleições em outubro. Ao que tudo indica, mais uma vez, a sucessão municipal deve ser pautada pelos partidos da base aliada. Um desses partidos é o PCdoB, onde o arquiteto César Queiroz, nome já carimbado nas eleições santo-antonienses já teve sua pré-candidatura confirmada.

Chama o SAMU


Serviço de Atendimento Móvel de Urgência esse é o significado da sigla SAMU estampada ao lado do número 192 que com certeza você já deve ter visto em uma ambulância. Nos últimos meses então, o SAMU se multiplicou e agora já está presente em mais de 30 cidades da região. Mas o que é o SAMU? Como ele funciona? Desde quando ele existe? A Reconvexo Magazine traz agora para você algumas respostas sobre o SAMU, que você pode até não querer ler. Mas, um dia pode precisar... Quem sabe?!

Apesar de novo por aqui, a ideia do SAMU não é nova e muito menos brasileira. O primeiro SAMU foi inaugurado na França, no ano de 1986 e é lá que se encontra o serviço de atendimento emergencial mais eficiente do mundo. No Brasil, o serviço chegou em 2003, a Porto Alegre e Ribeirão Preto, como parte integrante da Política Nacional de Atenção As Urgências do Sistema Único de Saúde (SUS). O SAMU regional cuja sede fica em Santo Antonio de Jesus foi inaugurado no ano passado, os municípios receberam os veículos de salvamento do governo federal e investiram na montagem das equipes e das bases para os veículos.

De acordo com a portaria que criou o SAMU brasileiro, um resgatado pela equipe de salvamento nunca pode ter o atendimento negado em hospitais. Por isso, as unidades de saúde da região são obrigadas a reservar um número de leitos para o SAMU. Esse número varia de hospital para hospital.  As ambulâncias, maioria por aqui, também são diferentes. Existem dois tipos, a Unidade de Salvamento Básico (USB) e Unidade de Salvamento Avançado (USA). A diferença é que as unidades avançadas são UTI’s móveis e sua equipe é composta por um médico, um enfermeiro e um motorista-socorrista. Já nas unidades básicas a equipe é formada por um motorista-socorrista e um técnico de enfermagem.

No Recôncavo, Santo Antonio de Jesus e Cruz das Almas foram escolhidas respectivamente como sede e sub sede regionais, responsáveis também pela fiscalização e regulação das outras unidades do serviço na região. Quando alguém de São Félix, por exemplo, liga para o 192, a ligação vai parar na Central de Regulação, em Santo Antonio de Jesus e é o médico-regulador de lá quem destina uma ambulância para socorrer a vítima e um hospital para onde ela deve ser levada.

Com ligações a custo zero, mesmo a partir de telefones celulares, o número de trotes destinados ao 192 é alto. A Central de Regulação contabilizou mais de cinco mil trotes só no primeiro mês de funcionamento do serviço. Uma campanha publicitária já está sendo pensada para conscientizar a população e diminuir os trotes. Esperamos que essa matéria também ajude, afinal de contas, nunca se sabe quem vai ser o próximo a precisar chamar o SAMU...

Tipos de Salvamento
O SAMU foi pensado para dar auxílio rápido e salvar vidas em casos como na ocorrência de problemas cardiorrespiratórios, em casos de intoxicação exógena, em caso de queimaduras graves, na ocorrência de maus tratos, em trabalhos de parto onde haja risco de morte da mãe ou do feto, em casos de tentativas de suicídio, em crises hipertensivas, quando houver acidentes/trauma com vítimas, em casos de afogamentos, em casos de choque elétrico, em acidentes com produtos perigosos e na transferência inter-hospitalar de doentes com risco de morte.

Cidades Com SAMU
Amargosa, Castro Alves, Cruz das Almas, Governador Mangabeira, Jequiriçá, Laje, Maragojipe, Milagres, Mutuípe, Nazaré, Santa Terezinha, Santo Antonio de Jesus, São Felipe, São Félix, Tancredo Neves, Ubaíra e Varzedo.

Países Com SAMU
Argélia, Argentina, Áustria, Bélgica, Benim, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa do Marfim, Cuba, Espanha, França, Itália, Irlanda, Luxemburgo, Marrocos, México, Portugal e Tunísia.


Foto: Natanael Luís

Turismo Sazonal em Cachoeira

Com a diminuição do números de turistas na cidade durante a alta estação, quem sobrevive desta atividade precisa buscar alternativas para manter seu sustento. Reportagem produzida para a disciplina Telejornalismo II sob a orientação da professora Márcia Rocha. 


Reportagem: Eliandson Santos
Imagens: Toni Caldas
Edição: Layla Scher