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Dona Dalva; sinônimo: Samba!


Dalva Damiana de Freitas, ou simplesmente Dona Dalva e em breve Doutora Dalva. A mulher que é a personificação do samba de roda cachoeirano abre o coração em uma entrevista exclusiva. Fala sobre o título de doutora honoris causa que receberá em breve da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, sobre o Samba de Roda Suerdieck, a Irmandade da Boa Morte, relembra o passado e prestes a completar 84 anos revela o quer da vida de agora em diante.

A Cachoeira: Antes de ser a Dona Dalva do Samba de Roda Suerdieck quem era a mulher Dalva?
Dona Dalva: Eu, Dalva Damiana de Freitas, era uma operária da Suerdieck. Mas, foi na fábrica Dannemann que aprendi a minha formação de operária charuteira com a mestre Maria Matilde. Ela foi quem me ensinou. Tudo era feito na mão. Aprender as coisas era a maravilha da vida. Naquele tempo, a classe operária não tinha os direitos que tem hoje. Não tinha reconhecimento. Não tinha nada.

AC: Como a Dalva operária se tornou a Dalva do Samba de Roda?
DD: Quando a Dannemann fechou por causa de uma greve. Na fábrica tinha uma foto de Getúlio Vargas, algumas colegas, antes do trabalho oravam em frente a foto e pediam proteção a ele. Porque ele deu as coisas que agente não tinha naquela época. Ele deu salário mínimo, férias, licença maternidade, a gente chamava ele de “Papai”. A gente tinha aquele amor, aquela devoção. A gente defendia o nome dele. Não deixava ninguém falar mal. Mas, um dia, a gente chegou pra trabalhar e a foto dele na parede havia sumido. Foi uma confusão. Todo mundo procurando “Cadê o retrato de papai?” Quando achamos, estava na lata do lixo, todo rasgado. Aí veio a greve. Tocaram os sinos. Todo mundo parou de trabalhar. Todas as classes operárias de São Félix participaram. Derrubavam os bancos das charuteiras que não queriam parar de trabalhar. Os que não queriam a greve tiveram que ir pra casa. E eu vim embora com a minha mãe porque ela tinha medo. No outro dia quando a gente chegou pra trabalhar a fábrica tava com as portas fechadas. Todas demitidas.

AC: E o que a senhora passou a fazer?
DD: Fiquei alguns anos parada, até ir para a Suerdieck. Lá, o encarregado de produção dizia: “Dalva é lenta. Mas, trabalha com qualidade!” e ali nas horas vagas, eu já fazia meu samba. As outras charuteiras se preocupavam em dar produção. Porque quem não desse produção era demitida. Eu nunca dei produção na minha vida. Quando uma colega ficava doente, eu passava caixinha, pra comprar remédios pra ela. Eu também organizava pra gente participar de festas Nossa Senhora D'ajuda, Santa Cecília. Então, as outras operárias tomaram amor comigo. E eu já fazia meu samba. Eu comecei a fazer samba ainda menina pra comemorar o aniversário das minhas bonecas.

AC: Então, o samba começou na sua vida como uma brincadeira de criança?
DD: Sim. Eu fazia casamento de bonecas, terno de reis, samba de roda. O que me desse na cabeça eu fazia e dava certo.

AC: Conte-nos um pouco mais sobre a Dalva menina. O que você gostava de fazer?
DD: Eu já fazia meus quitutes, meus ternos e minhas colegas me apoiavam. Eu pedia roupa emprestada a elas e fazia.

AC: Atualmente, como você observa a decadência das festas religiosas?
DD: É a falta de crença da humanidade. Essa modernidade de agora só acreditam em muvuca. Mas, eu acho que agente deve acreditar e fazer as coisas como eram antigamente. Tudo com amor, com dignidade.

AC: Qual o maior presente que o Samba de Roda lhe deu?
DD: Conhecimento. Me deu conhecimento. Muitas amizades boas. Enfim, me deu tudo. Através dele agente criou esse amor, essa força. Antes, agente não sabia de nada, não conhecia nada. A verdade é essa, não querem que eu fale, mas, eu falo.

AC: Ainda existe preconceito contra Samba de roda em Cachoeira?
DD: Antigamente, ninguém queria saber de samba. Porque era festa de pobre, de pessoas que não tinham nem roupa. Mas, teve uma época que o samba que eu fazia, quando saia na rua, parecia os Filhos de Gandhi quando saem na praça. Era um tapete. Saiam os tocadores com violão, cavaquinho, percussão. E as mulheres pegavam caquinhos nas fábricas que trabalhavam e eu dizia assim:

"A faca é minha caneta
A tábua é meu caderno
E o pandeiro é o meu tinteiro"

Antigamente, o único samba que existia, era aquele de depois da reza de Cosme e Damião. Um sambinha dentro de casa. Eu, Dalva Damiana de Freitas, foi quem fez esse grupo ser conhecido pela humanidade. Depois disso foi que surgiram vários, vários e vários.

AC: Quando surgiu a ideia do título de doutora honoris causa. Como foi pra senhora?
DD: (emocionada)... Deixa eu respirar meu filho... Eu me sinto feliz porque o conhecimento é tudo na vida. Eu era reconhecida fora mas, não aqui nesta terra. Achavam que o samba de roda nesta terra não ia ter continuidade. Eu respondi que eu com um pandeiro, com uma saia e um pano de costa amarrado na cintura é samba de roda. É Cachoeira. Então eu me sinto agradecida de o professor Xavier, esse cidadão ter vindo, ter reconhecido meu trabalho. Agradeço a Deus, porque esses anos todos ainda não tinha acontecido de pessoas de um grupo ter um reconhecimento desse tipo.

AC: O que mudou depois desse título?
DD: Para mim mudou tudo. Eu me sinto tão satisfeita que eu peço a Deus que me dê mais anos de vida e prosperidade porque estou esperando tudo de bom para o Samba de roda Suerdieck. Eu sei que esse título abriu as portas pra gente.e eu agradeço o professor Xavier Vatin que veio reconhecer o trabalho de uma mulher de 83 anos, e dia 27 de setembro eu faço 84, dia de São Cosme.

AC: Foi a maior homenagem que a senhora recebeu?
DD: Foi. Eu estou agradecendo a Deus todos os minutos. Eu faço 54 anos de samba, dia 22 de novembro. O reconhecimento que o professor Xavier me deu com esta carta, este anel, este amor.

AC: A senhora acredita que este título homenageia também as suas raízes?
DD: Sim. Toda a minha família. Meus netos, meus bisnetos estão vibrando e agradecendo a Deus, Todos tocam no samba (novamente emocionada). Estou satisfeita, muito satisfeita.

AC: Como a Irmandade da Boa Morte entrou na sua vida?
DD: Minha avó Vicença Ribeiro da Costa, conhecida como Vicença Xodó, era irmã da Boa Morte no tempo em que a Boa Morte ainda não tinha sede. Não tinham nada. Eram casas alugadas, vivia de aluguel, cada ano uma casa diferente. Só depois foi que veio o reconhecimento do sofrimento das irmãs. Porque todas as irmãs são sofridas. Hoje, eu sou irmã da Boa Morte. Já fui tesoureira e agora sou escrivã. Então hoje pra mim, tudo é orgulho. Tudo pra mim, chegou na hora certa. Hoje, eu ainda sento na máquina, ainda coso minhas coisas. Na minha família todos tocam no samba de roda. Eles enchem aqui essa casa e todos me chamam de vó. Todos, até os do samba que não são parentes.

AC: A senhora gostaria de receber alguma visita especial aqui na Casa do Samba de Roda?
DD: Gil (Gilberto) me conhece mas, ainda não pode vir aqui nessa casa. Dona Canô que está completando 104 anos. Eu peço a Deus que dê a saúde dela reestabelecida, porque ela merece. Porque Dona Estelita fez 105 anos ontem e Mãe Filhinha dia 25 de outubro faz 108 anos. Mas, eu queria um abraço da nossa presidente Dilma. Eu queria um abraço de Lula. Todos eles.

AC: O que a senhora espera do futuro?
DD: Muita paz, muita tranquilidade, saúde. Que Deus me dê mais alguns anos de saúde. Eu desejo a grandeza desse título que eu recebi.

AC: E como a senhora acredita que vai estar aos 100 anos?
DD: Eu quero estar sentada aqui vendo vocês chegarem pra me abraçar e eu quero levantar pra sambar. Eu quero sambar.

AC: Então a senhora espera chegar aos 100 anos sambando?
DD: Eu tenho uma coisa comigo. Quando Deus me chamar para o mundo da verdade. Porque esse mundo que nós vivemos é o da mentira. Um fala uma coisa, outro fala outra e a verdade acaba se tornando uma mentira. Mas, eu espero que quando eu for me embora, eu quero que todo mundo vá atrás vibrando, cantando samba “Adeus que eu já vou me embora”. “No samba nasci, no samba me criei, e no samba eu quero ir embora.” Eu me sinto feliz. Se todo mundo que tiver grupo se sentir feliz como eu me sinto. Oh, glória! Se eu puder ver todos os grupos crescendo, orgulhosos pra ter reconhecimento. Para saber o que é a cultura, eu me sinto feliz. Porque a cultura é a felicidade. A cultura é a grandeza e a cultura é o coração da gente e acho que todos devem criar esse amor. Agente tem que ter amor. Sem amor não tem dinheiro e com o amor o dinheiro vem. O amor de Deus conserva as coisas.

Jorge Ramos lança livro e fala sobre o maestro Tranquilino Bastos


No último sábado (15), o escritor e jornalista da TVE Jorge Ramos esteve em Cachoeira para o lançamento do livro: “O Semeador de Orquestras – História de Um Maestro Abolicionista”. A obra homenageia o jornalista e músico cachoeirano Manoel Tranquilino Bastos (1850-1935). O lançamento do livro foi o principal momento da programação paralela da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica 2011).


A homenagem também trouxe a cachoeira, um bisneto de Tranquilino Bastos, Derblay de Almeida, que vive no Rio de Janeiro. Emocionado, Derblay lembrou que a extensa pesquisa do escritor baiano possibilitou que a família carioca passasse a conhecer a história do maestro que, entre suas obras, compôs o Hino da Cachoeira, Airosa Passeata e o Passo Dobrado n° 147. Além de ter fundado a Sociedade Orpheica Lira Ceciliana, e de ter sido militante no processo de abolição da escravatura no Brasil.

Além do bisneto do maestro, o historiador Ubiratan Castro, que contribui com o prefácio da obra, também compareceu ao lançamento. Durante a sessão de autógrafos, Jorge Ramos recebeu um presente inesperado. A família Ferreira Bastos, de São Félix, presenteou o escritor com uma bengala usada por Tranquilino Bastos e que ele mesmo, já nos últimos anos de vida, doou para Renildes Ferreira, a quem ele chamava carinhosamente de 'Cordão de Ouro'. Ramos comentou que a bengala será a primeira peça do Memorial Tranquilino Bastos, que deverá ser erguido em breve. O secretário de Cultura e Turismo de Cachoeira, Lourival Trindade já anunciou que a cidade entrará na disputa para sediar o memorial que levará o nome do maestro.

Depois dos discursos de apresentação do livro, a Lira Ceciliana entoou várias composições do músico baiano e o público voltou a emocionar-se durante a execução do Hino da Cachoeira. Ao fim das homenagens, Jorge Ramos falou com exclusividade a reportagem do Jornal A Cachoeira.

A Cachoeira: Jorge, livro lançado, missão cumprida?
Jorge Ramos: Não. Esse livro é muito importante. Mas, é apenas um passo. Temos que continuar no resgate a essa figura popular que foi Tranquilino Bastos. O próximo passo é entregarmos a sociedade civil o Memorial Tranquilino Bastos. Um museu destinado a ele, aqui em Cachoeira com peças do acervo dele e continuarmos a cultuar a memória dele. Vamos fazer em breve, também, uma segunda edição do livro, revisada. Onde algumas incorreções de ordem gráfica da primeira versão, serão corrigidas.
AC: Como foi o processo de criação do livro?
JR: Foram treze ou quatorze anos de pesquisa. Uma pesquisa muito dura, muito árdua. Foi preciso mergulhar na história do contexto cultural, econômico e social do Recôncavo daquele período entre o século XIX e XX.
AC: E quanto a esse presente que você recebeu hoje? Você imaginava receber algo dessa importância?
JR: Essa é a bengala que o maestro utilizava e que ele tinha dado de presente a uma amiga dele e hoje voltou graças à doação da família de Renildes Ferreira para o futuro Memorial Tranquilino Bastos. Tudo que conheço sobre Tranquilino Bastos é surpreendente.

Ataliba solta o verbo

Sílvio Santana, O Ataliba (PT-BA) é prefeito da cidade de Maragojipe. Homem de língua afiada, ele abriu o jogo nesta entrevista realizada em julho de 2009.


ES: Ataliba como é ser prefeito de uma cidade como Maragojipe?

ATALIBA: Primeiro vamos quebrar esse paradigma da burocracia da gestão. Eu digo toda hora é muito gostoso fazer gestão e muito complicado. Primeiro porque pegamos o município sem credibilidade econômica. Sem moral pelo que aconteceu aqui. Os desmandos que houve no município. A degradação do valor da família. Implementaram aqui em Maragojipe uma política de esvaziamento de valor e você quebrar um circulo de sete famílias governando um município em quase 150 anos. Trazer práticas administrativas diferenciadas, isso é um choque. Mesmo com a comunidade tendo votado em você. Ainda acreditam no “favorzinho”, na receita, no cimento, essa coisa toda. E pra você quebrar isso, e depois outro elemento que na minha concepção é o mais importante que é você trazer o povo da periferia pra fazer gestão. Não excluindo quem está no centro mas, misturar essas cartas. Hoje eu me orgulho muito. 

ES: E o que mudou na vida dos Maragojipanos?
ATALIBA: A gente conseguiu implementar um ritmo de gestão aqui em Maragogipe e os frutos a gente percebe em cada canto e eu não tenho problema de fila em minha porta. Secretário nenhum tem esse problema. As pessoas estão aí pra fazer crítica e é importante você construir essa massa crítica no município. A gente pega um município com 32% de analfabetismo e reduz pra 12%, 13% em quatro anos. Você pega um professor que ganhava um salário mínimo mais um abono de 20% e hoje tem o maior piso da região do recôncavo discutido com eles, e não é maior justamente pelos embaraços da gestão publica que é o orçamento. Que é a capacidade de no próximo ano você dar um nível percentual de aumento. A questão do aumento no limite com o pessoal que é de 50%. 

ES: E os salários estão em dia?
ATALIBA: Hoje, Ataliba paga o salário em dia. Tudo bem o salário ele aquece a economia do município mas, isso é uma garantia constitucional. Não é um favor da gestão do Ataliba ou da gestão anterior. A gente venceu essa batalha. Esse espaço já foi garantido, consolidado e agora precisa transformar essa gestão em eficiente. A gente precisa tomar consciência de que os 1,7 mil servidores da prefeitura são pagos pela arrecadação de cada um dos 42 mil maragojipanos e outros que não são maragojipanos, mas acabam recolhendo seus impostos aqui e a gente precisa transformar isso em um serviço de qualidade. Sem essa “peste” aqui colocada de que servidor publico não gosta de trabalhar. 

ES: E como está o atendimento ao cidadão na prefeitura?
ATALIBA: O grande desafio nosso é esse, e eu tenho certeza que tenho conseguido fazer isso. Mas, a gente precisa ser muito mais eficiente pra entrar na prefeitura e saber que você vai ter um atendimento de qualidade como se estivesse num shopping center e o cidadão quer lhe vender alguma coisa e usa de todos os argumentos pra te convencer. Então, quem está na gestão publica tem que entender isso. O cidadão lá é um contribuinte e se torna cliente nosso e precisamos oferecer um serviço de qualidade. 

ES: Sobre a participação da periferia e do centro na gestão. Como está sendo executado o orçamento participativo em Maragojipe? 
ATALIBA: Faz três anos que a gente utiliza o orçamento participativo. Estamos no quarto ano agora. Mas, eu acho que é uma ferramenta que já está obsoleta e precisa avançar muito mais. Nós temos saldo em caixa. Mas, a lei de responsabilidade fiscal diz que eu não posso mexer naquele dinheiro. É uma verba carimbada. Então assim, a população está mais esclarecida porque também os instrumentos de fiscalização foram constituídos até por conta de concepções administrativas do país, do estado. Hoje a maioria dos gestores, não tem mais necessidade de andar com um talão de vales em baixo do braço. Ainda tem, mas você percebe que diminuiu muito. O poder de fiscalização aumentou. Eu acho que o governo federal, através do Tribunal de Contas da União (TCU), monta esses mecanismos de não só ser punitivo, mas ser prepositivo. Você tem uma área no TCU que é punitiva que é fiscalizadora. Mas, também tem um braço que é prepositivo, está propondo mecanismos da gestão publica para que você evite cometer algum ato ilícito. 

ES: E as tais contas rejeitadas?
ATALIBA: Eu tive mesmo conta rejeitada pelo tribunal de contas do município. E debato aqui sempre. Eu estou no mesmo roll do cara que meteu a mão nos R$36 mil da igreja católica? Do cara que pegou o dinheiro da merenda escolar e depositou na conta do filho? Porque o meu contador foi lá e contabilizou o meu pessoal de saúde e educação no desenvolvimento econômico. Então os percentuais nossos de 15% e 25% não foram alcançados. Nós tivemos a conta rejeitada porque nós alcançamos 24.39% na educação e 14.68% na saúde. Mas, eu to no mesmo roll do cara. Então, assim tem discutido com a comunidade. Porque a comunidade precisa saber e entender. Porque quem faz o julgamento de nossas contas são pessoas que estão dentro de um ar condicionado. Não conhecem a realidade do município. Do cara, que a mãe morreu e que o corpo ta lá e que a família não tem R$250, exatamente para comprar um caixão. Que ele não sabe que o ônibus é velho. Que o ônibus quebrou e você tem que substituir e não está no processo licitatório. O problema na mão do prefeito é imediato. Você não sabe nem o nome da pessoa que morreu, mas você sabe que precisa ajudar. Aí no dia que a pessoa morre o atestado de óbito ainda não está pronto. Mas, você tem que enterrar em 24h. Aí depois que você enterra você tem que ter o laudo de que a pessoa é pobre. O atestado de óbito, carteira de identidade não sei o que... Aí é uma loucura. E quando você consegue isso, 60 dias depois você já apresentou ao tribunal de contas. 

ES: Prefeito deixe uma mensagem para o nosso blog: 
ATALIBA: Se você investe R$100 mil em comunicação, você está abrindo a possibilidade da comunidade estar sabendo. Antes eu podia usar R$10 mil pra pavimentar uma rua. Mas, só pavimentar rua não adianta. Você tem que ter uma comunicação boa. E a comunicação na Bahia hoje, está defasada porque nesse padrão que está aí, o prefeito só é valorizado quando coloca R$20 mil ou R$30 mil num programa de TV. E se você não coloca R$10 mil, R$15 mil você apanha e muito. Eu disse na Record: “Eu apanhei de 14 irmãos, não tenho medo de apanhar de Casemiro, de Bocão, ou do rapaz que bate na mesa.” Então pra não ficar dando cor à imprensa. Ficar falando que a imprensa é marrom. Eu acho que é bom a juventude estar vindo pra esse lado, porque a comunicação é o quarto poder.

Foto: Welington Alves

Dona Canô: Uma história de vida


Quem é Dona Canô? Claudionor Viana Telles Velloso, nascida no dia 16 de setembro de 1907 na cidade de Santo Amaro da Purificação-BA. Residente numa casa simples de arquitetura tradicional repleta de fotografias. Sinônimo de simplicidade, carisma e dotada de uma sabedoria indescritível. Os cabelos brancos denunciam a idade, mas a lucidez contradiz com os seus 102 anos. Dona Canô emana inteligência e sabedoria, nas palavras sinceras e objetivas que revelam a sua identidade. É assim que podemos definir a matriarca da família Veloso. Uma mulher guerreira nas suas atitudes e simples nos seus atos. Agraciada com a capacidade de procriar oito filhos, entre os quais Caetano Veloso e Maria Bethânia que a tornaram famosa internacionalmente. Mas, a sua fama também se deve ao fato de dona Canô ser uma pessoa sempre humilde e receptiva, as portas da sua casa em Santo Amaro estão sempre abertas à visitação.


ES: A senhora mora nesta casa há mais de 60 anos. O que esse lugar tem de especial para a senhora?
DONA CANÔ: Eu nasci em Santo Amaro. Toda a minha família é de Santo Amaro. Tanto a minha quanto a de Zeca, e as crianças todas nasceram aqui em Santo Amaro, então me habituei a viver numa cidade do interior e estou vivendo.


ES: A senhora já recebeu muitas homenagens na vida. Qual delas guarda com maior apreço?  
DONA CANÔ: Eu queria saber o porquê de tantas homenagens, se eu não sou nada, meus filhos é que cresceram e saíram para o mundo, mas eu não sou nada.


ES: Não se sente privilegiada de ser a mãe de uma família tão bonita? 
DONA CANÔ: Não. Eu acho que isso chegou para mim, mas não é privilégio meu, é de qualquer mãe que tinha que acontecer isso. Agora chegou para mim que era mais humilde, como a mãe dos outros todos. Mais humilde como a mãe de Roberto Carlos, mais humilde como a mãe de Erasmo Carlos, mais humilde como a mãe de Francisco Alves, eu só posso agradecer.


ES: Qual o segredo para se chegar aos 102 anos com tanta lucidez e beleza?  
DONA CANÔ: Não tem segredo, eu nunca disse que tinha. Nunca escondi de ninguém a minha vida. Apenas eu procurei viver em paz, recebendo as graças e aguardando o que tinha de acontecer, o que aconteceu de bom eu vi, o que aconteceu de ruim, eu vi também.


ES: Qual é o presente de aniversário que a senhora gostaria de receber?
DONA CANÔ: Presente? Velho não precisa mais de presente. Eu já falei quem quiser me dar presente, me traga sabonete, pasta de dente, lençol, toalha de banho, para que eu doe aos meus velhinhos. Desde que eu fiz 80 anos, não peço mais presente. Quando chega, eu distribuo. (Neste momento, o gato de estimação de Dona Canô, “Negão”, tentou morder uma estudante de jornalismo que acompanhava a entrevista).


DONA CANÔ: “Ô Negão, mordeu? Ô Negão, tá maluco? Tá caduco?” 


ES: No ano passado a senhora contou a mulher do Governador Jacques Wagner que o seu sonho era comemorar os seus 102 anos na igreja restaurada. A senhora vai realizar esse sonho?  DONA CANÔ: Se não morrer, vou. Eu já pedi aos meninos: “Olhem, continuem da mesma forma, missa na Purificação, e alguma coisa em casa, não quero mais que façam fora de minha casa.” É uma missa e depois um café aqui em casa. E um caruru que há muitos anos meus filhos fazem.


ES: Graças a sua religiosidade a senhora recebeu uma benção solene do Papa Bento XVI, Como foi para a senhora enquanto católica, receber isso?
DONA CANÔ: Uma coisa tão grande, que eu nem posso agradecer, porque é uma graça que eu não podia esperar. Uma mensagem do Papa para mim! Meus amigos padres se comunicaram com ele, e ele aceitou a proposta e me mandou. Eu não pedi, chegou pra mim porque Deus quis. Todo dia eu digo o que eu tenho hoje, o que eu sou hoje, eu agradeço a Deus.(Aqui, mais pessoas chegam para visitar Dona Canô, e ela mais uma vez muda o rumo da conversa).


DONA CANÔ: Agora estão dizendo que aqui é a casa dos famosos. Não dizem “A casa de Canô”, ou “A casa de Zeca”, dizem “A casa dos famosos”. Graças a Deus, me deram fama e eu não pedi.


ES: A senhora acha que ficou famosa por causa de sua humildade?
DONA CANÔ: Humilde eu sou até hoje. Quem quiser achar que a minha humildade é de propósito ache. Eu não posso fazer nada, eu sou humilde. Se eu ainda pudesse fazer alguma coisa, mas eu não posso fazer nada, dependo do meu povo que trabalha para mim. E meus filhos a Clara Maria está aí, veio passar o fim de semana com o neto. Rodrigo foi trabalhar, mas daqui a pouco ele está aí. É o que eu digo, a graça maior que eu tenho é meus filhos não esquecerem que eu existo. Eles subiram, mas não esquecem que existo. Então, isso é uma graça muito grande que Deus me deu. Acho que minha graça maior é essa ter meus filhos comigo.


ES: Mas, a senhora é uma mãe coruja com seus filhos?  
DONA CANÔ: Nunca fui coruja não. Nunca escondi o mal que fizeram, mas foram criados sem pancada, sem castigo, com liberdade, porque hoje não se pode dar liberdade a um menino, já vão errando.


ES: E quando a senhora sente saudades dos seus filhos que estão longe o que faz para matar essa saudade?
DONA CANÔ: Eles me chamam ao telefone. A maioria das vezes são eles que me chamam, porque eu não tenho o telefone de Caetano e também posso dizer que não tenho o de Bethania. Caetano deve passar aqui no dia 16, ele vai pra Feira, vai cantar em Feira de Santana.

ES: O que a senhora anda lendo atualmente? 
DONA CANÔ: Atualmente, eu leio muito pouco, to lendo os jornais que Rodrigo traz uma revista de Aparecida que eu comprei e as revistas que Rodrigo compra. Nissinha compra, eu leio. 


ES: E a senhora já leu o livro que fala da sua vida “Lembranças do saber viver”?  
DONA CANÔ: Já li não, eu quem fiz com a minha boca. Pediram pra fazer, deixei. Ainda ontem eu autografei um porque gostaram muito. Foram dois amigos que me pediram pra fazer, eu disse: “Vai ser chato eu contar a minha vida. O que é que eu vou dizer? Dizer o que eu passei, o que eu não passei.” Mas, aí contei a vida de meus filhos, a vida de Caetano, a vida de Bethania, como chegaram onde chegaram. Não custou nada fazer.


ES: E o livro de receitas?  
DONA CANÔ: O livro de receitas, quem fez foi minha filha Mabel, ela copiava as receitas e eu nem sabia, um dia ela disse: “Olha minha mãe, eu fiz um livro com as receitas da senhora.” E aí esse livro de receita ta vendendo até hoje.
(Aqui ela passa a falar sobre os gostos dos seus filhos).



"Cada um tomou sua distância e procurou fazer aquilo que gosta. Mabel gostava muito de ensinar, de dar palestras, de escrever poesias. Caetano pôs-se a cantar e Bethania, cada um tem sua família. E vivem bem. Clara mesmo, esse aqui é neto dela, esse João (apontando para um bisneto que acompanhava a entrevista)." 


ES: Dona Canô tem alguma música de Caetano ou de Bethania com a qual a senhora se identifique?
DONA CANÔ: Interpretação de Bethania, qualquer uma pra mim é bonita. Porque ela sabe interpretar muito bem. E de Caetano tem muitas que eu gosto, mas eu escolhi uma porque ele tava muito novo quando fez a música, “Força estranha”, é uma música muito forte pra um menino de 13 anos. É muito forte.


ES: Ele tinha só 13 anos?
DONA CANÔ: É. Com 12 ele já escrevia. A primeira música dele foi “Ciclo”, O professor de português fez e pediu pra ele musicar, era um poema muito bonito, Aí foi que Zeca viu que ele sabia escrever música, Era ele escrevendo, Mabel tomando, Foi quando ele chamou: "Meu pai, venha ver uma coisa, o professor da escola pediu pra musicar esse poema, eu vou tocar pro senhor ouvir. Com 12 anos, ele já apresentava no ginásio pros companheiros mais velhos do que ele. ’’


ES: E a música que fizeram pra senhora, que Daniela canta: “Dona Canô chamou...” a senhora gosta dessa música?
DONA CANÔ: A Didá aquela que toca no tambor foi ela que inventou isso. Aí logo aprenderam porque esse povo aprende tudo, (risos) Eu fui pra Feira de Santana, quando eu cheguei um retrato meu enorme, e o povo cantando Dona Canô chamou, ora, mas já se viu? Me deixe. (risos)


ES: Dona Canô nós queríamos agradecer o seu carinho e a sua simpatia.
DONA CANÔ: Simpatia sempre, nunca deixo de atender. Não olho personalidade, todos pra mim são iguais, homens, mulheres, meninos, tudo que me procura.


ES: A senhora que já foi conselheira de ACM e até do Presidente Lula, daria que conselho para nós que estamos iniciando no jornalismo? 
DONA CANÔ: É uma carreira muito boa, muito bonita. Mas um pouco pesada, porque tem coisas que você tem que escrever e tem medo. Mas, procurando fazer a coisa certa, Não procurando aumentar nem diminuir, eu tenho um bisneto que fez jornalismo, hoje tá trabalhando com Caetano. Não tem nada a ver com jornalismo. (risos) Trabalhou muitos meses na TV Bahia, mas ele dizia: “Minha 'bisa' eu não gosto desse trabalho, de ficar dentro de um escritório, eu quero uma coisa que eu possa fazer o que eu aprendi.” e Nossa Senhora ajudou Caetano precisou dele e ele ta lá. Ainda hoje ele tá em São Paulo arrumando porque Caetano vai lá. Não parem, continuem se aperfeiçoando, porque o jornalismo é muito bom pra quem tem capacidade de escrever. Se vocês gostam de escrever estudam para escrever, vai ser uma beleza. Não deixem, continuem, sejam permanentes nas aulas. Agora, procurem ler tudo o que você puder... Livros e jornais, porque muitas vezes é tudo mentira (risos).


Texto: Eliandson Santos e Suely Alves
Fotos: Maria Olívia